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Pesquisa

Publicado artigo da UFTM sobre internações e óbitos por doença hepática associada ao álcool no Brasil e regiões

Publicado: Segunda, 18 de Maio de 2026, 08h30

 

O artigo “Internações e óbitos por doença hepática associada ao álcool no Brasil e regiões, 2000– 2022” escrito por pesquisadores da UFTM foi publicado na Revista de Epidemiologia e Controle de Infecção (RECI), uma publicação oficial do Núcleo de Epidemiologia Hospitalar do Hospital Santa Cruz e do Programa de Pós-graduação em Promoção da Saúde da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), no Estado do Rio Grande do Sul. O artigo foi escrito em 2025 e publicado em março de 2026, após realização da coleta de dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), ambos pertencentes ao Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).

O objetivo do estudo foi analisar a evolução temporal e o perfil epidemiológico das internações hospitalares e óbitos por doença hepática associada ao álcool nas cinco regiões do Brasil, no período entre 2000 e 2022.

São autores do artigo os alunos do curso de Medicina Apollo Nobre Torres; Mirian Akiko Kawamura; Laís Vasques Bertoncini; Gustavo Tadeu Freitas Uchôa Matheus, orientados pela professora Geisa Perez Medina Gomide, gastroenterologista e hepatologista, coordenadora do Departamento de Clínica Médica da UFTM; pela enfermeira epidemiologista, Fernanda Carolina Camargo, consultora da Gerência de Ensino e Pesquisa do HC-UFTM e pelo estatístico Sérgio Antônio Zullo, também consultor da Gerência de Ensino e Pesquisa do HC-UFTM.

Professora Geisa Perez Medina Gomide (Foto: acervo Geisa Perez)

 

Acesse o artigo:

https://seer.unisc.br/index.php/epidemiologia/article/view/20181

 

O estudo

Tendo em vista que a doença hepática associada ao álcool (DHA) é a principal causa de morte atribuível ao álcool, a sexta em internações relacionadas e há poucos estudos sobre o tema, os pesquisadores entenderam ser essencial que o assunto fosse explorado pela comunidade científica e iniciaram o estudo que produziu o artigo.

A esteatose hepática ocorre em cerca de 90% dos etilistas, sendo que 10% a 20% dos bebedores pesados crônicos evoluem para formas graves, como hepatite alcoólica e cirrose. A professora Geisa explica que os sintomas não costumam ser evidentes, o que pode dificultar o alerta para o problema e a busca de atendimento especializado para o paciente com DHA. Quando aparecem sintomas, os casos leves podem apresentar fadiga, hepatomegalia (aumento do tamanho do fígado) e anorexia. Nos casos graves, icterícia, ascite, febre, dor abdominal, encefalopatia hepática e hemorragia por varizes são sinais clínicos evidentes.

Foto: Acervo pessoal da Professora Bruna Zaidan (Dep.Patologia UFTM)

 

De acordo com os dados do Datasus, foram registradas 344.039 internações e 214.642 óbitos no Brasil, entre os anos de 2000 e 2022. De uma forma geral, observou-se maior frequência de internações e mortes em indivíduos do sexo masculino, faixa etária de 40 a 59 anos, autodeclarados pretos ou pardos, solteiros e com baixa escolaridade. As variações percentuais anuais (APCs) para as internações e óbitos foram ascendentes em todas as regiões do país e maiores na região Norte, 2,57% e 4,95%, respectivamente. A região Sul apresenta valores relativamente baixos, no entanto, possui taxas de internação e mortalidade muito acima da média nacional.

Por região

Foram registradas 344.039 internações no Brasil por DHA no período de 2000 a 2022, o que representou uma taxa média anual de 7,8 internações/100.000 habitantes. A região com maior taxa de internações por DHA foi a Região Sul (10,5 internações/100.000), seguida pelas regiões Sudeste (9,0 internações/100.000), Centro-Oeste (7,4 internações/100.000), Nordeste (6,1 - internações/100.000) e Norte (3,6 internações/100.000).

Quanto aos óbitos, registraram-se 214.642 mortes no país por DHA no mesmo período, correspondendo a um coeficiente de mortalidade médio anual de 4,9 óbitos/100.000 habitantes. A região com maior coeficiente de mortalidade foi a Região Sul (5,6 óbitos/100.000), seguida pelas regiões Nordeste (5,5 óbitos/100.000), Centro-Oeste (5,2 óbitos/100.000), Sudeste (4,8 óbitos/100.000) e Norte (2,2 óbitos/100.000).

Quanto ao crescimento anual ao longo do período estudado, pode-se observar crescimento da internação e mortalidade por DHA em todas as regiões, porém esse aumento ocorreu com diferentes intensidades: enquanto as regiões Sudeste e Sul tendem a estabilidade, Norte, Centro-Oeste e Nordeste apresentaram as maiores variações percentuais anuais (APCs).

“Há de se considerar que essa diferença pode estar relacionada a melhorias dos serviços de saúde nas regiões brasileiras, aos cuidados, à oportunidade e precisão diagnóstica, ao longo dos 23 anos avaliados. Ou ainda, à melhor operacionalização dos sistemas de informação em relação à notificação da DHA, com melhor qualificação dos registros e processamento dos dados. Vale ressaltar que, conforme os achados do presente estudo, embora apresente baixos valores de APC de internação e de mortalidade, a região Sul possui taxas de internação e mortalidade muito acima da média nacional. Sobremaneira, o consumo de álcool nesta região e o mais alto do Brasil, como já publicado anteriormente”, constatou Geisa.

Sexo, raça e faixa etária

Pesquisas anteriores mostraram que o risco de internação por DHA é maior no sexo masculino em relação ao sexo feminino, sendo que o presente estudo corrobora esses achados: a ocorrência de internações e óbitos de homens representou, respectivamente, 82% e 88,1%. “Apesar de o consumo abusivo do álcool e da incidência da DHA ser mais prevalente nos homens, é preocupante a proporção de mulheres que vem fazendo uso crônico de bebida alcoólica, assim como desenvolvendo distúrbios hepáticos atribuíveis ao álcool”, pontuou a pesquisadora.

Quanto a faixa etária, 55,6% dos pacientes internados tinham entre 40 e 59 anos. Na caracterização racial, houve equivalência na predominância da raça branca (35,8%) e raça preta ou parda (35,8%).

Os óbitos nacionais por DHA foram predominantemente em adultos de 50 a 59 anos (28,8%), seguido daqueles com idade de 40 a 49 anos (26,7%). Esse perfil etário foi condizente com pesquisa que, ao analisar os óbitos causados por doença alcoólica do fígado no Brasil de 2010 a 2016, identificou que mais da metade dos pacientes faleceu na idade entre 40 a 59 anos.

Estado civil e escolaridade

Quanto ao estado civil, o perfil solteiro prevaleceu entre os óbitos, destacando provavelmente o impacto da falta da rede de apoio familiar na pior evolução da DHA. Ao estudarem a relação entre o estado civil do paciente e a ocorrência de abuso de álcool, pesquisadores identificaram que o casamento é um fator protetor contra o abuso de álcool e, consequentemente, de doenças que tem o álcool como principal etiologia.

A baixa escolaridade dos pacientes falecidos por DHA coincide com estudo que associa menos anos de estudo à maior chance de consumo abusivo de álcool, porém, assim como a raça, essa variável apresentou altas taxas de incompletude, variando de 16,3 a 30,5%, impedindo conclusões mais abrangentes sobre os valores encontrados.

Conclusão

Para os pesquisadores, a amplitude temporal (2000 a 2022) possibilita uma compreensão mais robusta das mudanças nos padrões epidemiológicos e regionais da doença, configurando um avanço inédito na literatura nacional.

Células de biópsia de fígado normal (Imagem: acervo pessoal do professor Antônio Carlos Meneses)
Células de biópsia de fígado com cirrose (Imagem: acervo pessoal do professor Antônio Carlos Meneses)

 

“A análise permitiu demonstrar o impacto do agravamento de DHA de forma ascendente em internações e óbitos nas diferentes regiões do país. Ressaltamos a importância na promoção de ações em saúde para a contenção do uso abusivo de álcool. Pesquisas futuras poderão analisar a integração entre os bancos de dados para subsidiar estratégias de controle e prevenção do agravo, assim como verificar a oportunidade de acesso e a sobrevida após a internação”, concluiu Geisa.

 

 

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